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O INTRODUTOR DO FUTURISMO EM PORTUGAL

 

Vida

Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa Rita, mais tarde passaria a chamar-se apenas, Santa Rita Pintor.

Pintor e Escritor português, nasceu em Lisboa em 1889. Foi considerado o introdutor do Futurismo em Portugal.

Em 1910 foi bolseiro na Academia de Belas Artes de Paris, posição que perdeu devido às suas ideias monárquicas e às más relações com o embaixador de Portugal João Chagas.

Regressado a Lisboa em 1914, planeia publicar o Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti em português, tarefa que nunca realiza, apesar da autorização do autor.

Santa-Rita Pintor, aparece como personagem, na novela de Mário de Sá Carneiro “A confissão de Lúcio”, 1914.

Em 1915, foi um dos organizadores de um grande congresso de jovens artistas e escritores em protesto contra a apatia da velha geração.

Santa-Rita Pintor, assim como outros artistas, participou em 4 de Abril de 1917 numa Matiné para apresentação do futurismo ao público português, no Teatro República (São Luis) em Lisboa.

Em Novembro-Dezembro de 1917 Santa-Rita preparou o lançamento da Revista Portugal Futurista, que foi apreendida à porta da tipografia, por subversão e obscenidade de alguns textos.

Com a morte de Santa-Rita e Amadeu de Souza-Cardoso, em 1918, e a partida de Almada para Paris, o movimento Futurista Português entra em declínio, marcando o fim da primeira fase do modernismo português.

 

Obra

Quatro trabalhos de Santa-Rita Pintor apareceram, junto com a Ode Marítima de Fernando Pessoa, na segunda e última edição da Revista Orpheu, em 1915, a qual mereceu de Sá Carneiro a apreciação de “Obra Prima do Futurismo”. São eles:

  • Estojo científico de uma cabeça – aparelho ocular – sobreposição dinâmica visual – reflexos de ambiente X luz.
  • Composição estática interior de uma cabeça – complementarismo congénito absoluto
  • Síntese geometral de uma cabeça X infinito plástico de ambiente X transcendentalismo físico
  • Decomposição dinâmica de uma mesa – estilo do movimento

 

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Santa Rita Pintor nunca expôs em Portugal. No entanto é através das revistas Orpheu Portugal Futurista, que se conhecem mais algumas das suas obras. Um, inacabado, permite afirmar que Santa-Rita foi o primeiro português a realizar um quadro moderno de interesse internacional; dado que a esse quadro introduz uma ironia que exige a maior atenção, uma vez que utiliza alguns processos gráficos do Cubismo picassiano, mas a sua dinamização interna situa-se para além da estética cubista, numa estruturação que se pode dizer alcança enquadramentos e raciocínios plásticos muito evoluídos.

Foi em Paris que Santa-Rita se interessou pelos futuristas e, tal como eles, talvez quisesse adoptar a linguagem cubista para a expressão da «simultaneidade dos estados de alma» mas, diferentemente deles, foi constante a sua admiração por Picasso.

No quadro Perspectiva dinâmica de um quarto de acordar (1912), Santa-Rita opera uma grande transformação dos elementos e objectos, e por processos quase arquitecturais fragmenta, reúne e «estica» este seu quarto numa síntese muito inteligente que está a par dos melhores momentos do cubismo sintético de Picasso e de Juan Gris. As formas são geometrizadas e «revolvidas» para então se incluírem elementos referenciais do mobiliário – cama, varões, janelas, mesas, etc.

 

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Nesta pintura, considerada uma das melhores de Santa-Rita, ele demonstra um grande entendimento e aplicação da composição. A passagem do cubismo analítico ao cubismo sintético faz-se através da corporização do elemento fundamental da linguagem cubista: o plano. Essa passagem deu-se já nas obras de Braque e de Picasso, a partir do final de 1911, mantendo-se porém a rectilinearidade dos sinais gráficos.

 

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No Estojo científico de uma cabeça + reflexos de ambiente + luz (sensibilidade mecânica) de 1914, as sugestões anunciadas têm uma leitura directa nos sinais gráficos da composição que se multiplicam e sobrepõem, em desenho e colagem. Santa-Rita utiliza aqui a técnica dos «papiers collés» tão utilizada pelos cubistas, mas ensaiando uma ampliação quer das técnicas de pintura, quer do conteúdo das mensagens propostas, uma vez que a introdução de objectos pré-fabricados de uso corrente estimula duplamente as formas, dando-lhes outras possibilidades dinâmicas de expressão e combinação, tendo em vista o aprofundamento das formas intuitivas e a sua conjugação com as outras mais «racionais».

De todas as suas pinturas apenas resistiram duas, dado que todas as outras foram destruídas pela família a seu pedido, depois da sua morte. São elas: Cabeça e Orfeu dos  Infernos (1913), sendo que esta última faz parte de uma colecção privada e da qual não se conhecem reproduções.

Na pintura Cabeça=Linha=Força. (Complementarismo orgânico), as linhas são tensas e curvas, de modo que a forma não é «analisada» por planos, mas por representação de um entrecruzar de superfícies arqueadas, algumas das quais se alongam como fitas que na sua «torção» mostram a outra face. O sinal evidencia o corpo, humoristicamente; e, assim no aspecto mais puramente pictórico, reencontramos o que poderia ter ficado pretendido apenas intelectualmente. 

 

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Por seu lado, na pintura Orpheu dos Infernos figuram corpos, rostos, formas – cores e aeroplanos vogando na atmosfera dantesca em que está mergulhado Veloso Salgado, sendo que esta pintura revela sem dúvida os dotes admiráveis e a precocidade de Santa-Rita; assim como a sua capacidade para a composição e para o sistema já muito «adulto» com que joga as figuras, as formas e o todo do quadro. Pelo valor formal e pelo humor resultante da inter penetração de «objectos», seria talvez preferível não lhe chamar apenas futurista, mas reparar no que há já de cubismo sintético e de protodadaísmo, o que permite pedir para Santa-Rita um lugar no panorama internacional da vanguarda dessa época.

A produção pictórica de Santa-Rita revela-se a dado tempo surpreendente e muito coerente na sua evolução, ultrapassando de quadro para quadro uma estética exclusivamente futurista de raiz italiana-francesa, para em progressão se vir a desvincular da descrição dos objectos e penetrar em linhas e cores nos terrenos das qualidades abstracto-compositivas próprias; sondando sempre com uma intenção declarada os aspectos da autonomização da cor e da concepção da composição, partindo da relação de tensões entre a cor, a linha e a arquitectura estrutural linear-geométrica.

Se se pode insistir num humor moderno que Santa-Rita terá sido o primeiro a entender e a viver, pouco preocupado com a «obra», é para melhor se poder sentir a agitação que provocou entre os seus contemporâneos. Santa-Rita utilizava de forma singular para títulos dos seus quadros longas frases descritivas segundo um código futurista pessoal, em que propõe sistemas diferentes de abordagem sensível, «radiográfica», litográfica e mecânica, ou ainda referir um «inter-seccionismo plástico» que nos faz lembrar certas experiências poéticas contemporâneas, de Pessoa e de Almada. O caso destes artistas portugueses do «século novo» é, além de tudo o mais que se possa dizer, muito importante pela voluntariedade heróica que a sua própria modernidade exigiu, pelo grande isolamento em que frequentemente se encontraram quando foram verdadeiramente inovadores, e pela incompreensão a que foram votados e que de certo modo ainda hoje persiste.

Com a morte de Amadeu e Santa-Rita em 1918 e a partida de Almada para Paris, o Futurismo em Portugal entrou em declínio e tudo enfraquecera e perdera sentido. Em fins de 1919, um jornalista anónimo dava conta da dispersão do grupo e do seu fim, ou do fim da sua escola. O sonho de Fernando Pessoa de um «super-homem», de certo modo havia acabado com a morte de Santa-Rita, continuando contudo, juntamente com Almada, a lutar contra a «mediocridade» e o sentido de inferioridade do português.

Fica assim a memória da dimensão do sonho deste grande vulto – e símbolo – de uma juventude que acreditava firmemente na criação pura e desvinculada do artificialismo da sociedade de consumo ou da opressão cultural, ou não, entre os homens. Que sería da Arte se ela não fosse, antes de tudo, a reacção, o protesto, a recusa, a variante, a proposta nova, a resposta individual de um homem vivo, particular e único? Se a obra de Arte, ao contrário da emergência do imprevisível que é, fosse um grupo «estatístico», seria possível planificar o sonho com antecedência… ora isso sabemos que é impossível. O tributo, as dores e desesperos de Santa-Rita, Amadeu, Almada, Viana e muitos outros que sofreram para ganhar o aplauso dos ignorantes e dos adormecidos, não foi esquecido.

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